Reconhecer quem nos ajuda a despertar


CONTEMPLAÇÃO DA IMAGEM

Observe a relação entre o mestre e o discípulo. Um oferece orientação; o outro precisa estar disposto a escutar, refletir e aprender.

Tenho acolhido as pessoas que, com sabedoria e sinceridade, me ajudam a reconhecer meus erros e a crescer?

Às vezes, a orientação que mais precisamos é justamente aquela que nosso orgulho tem dificuldade de aceitar.

INTRODUÇÃO AO TEMA
A porta do aprendizado
Vamos nos deitar confortavelmente.
Feche os olhos e permita que o corpo encontre o chão.
Observe a respiração.

Imagine uma porta que se abre para um caminho desconhecido.
Do outro lado, existem coisas que você ainda não conhece, lugares que nunca visitou e possibilidades que ainda não descobriu.
Para atravessar essa porta, é necessário admitir que existe algo além daquilo que você já conhece.

Talvez seja assim também com a sabedoria.
Enquanto acreditamos que já compreendemos tudo o que precisamos compreender, pouco espaço resta para aprender.

Não precisamos abandonar nossas convicções.
Precisamos apenas reconhecer que nossa compreensão pode se ampliar.
Respire tranquilamente.

Permita que essa imagem permaneça por alguns instantes.
Hoje, vamos investigar a disposição interior que torna o aprendizado possível.

O ENSINAMENTO
A humildade de quem continua aprendendo
O primeiro verso deste capítulo apresenta uma pessoa sábia que mostra os verdadeiros tesouros, indica aquilo que deve ser evitado e oferece correção.

O ensinamento nos convida a reconhecer o valor de quem pode nos ajudar a enxergar melhor.
Mas existe uma dificuldade: nem sempre gostamos de ser corrigidos.
Quando alguém aponta uma falha nossa, podemos sentir que nossa competência, nossa experiência ou nosso valor estão sendo questionados.
Em vez de examinar o que foi dito, procuramos justificar nossas atitudes.

Às vezes, estamos tão ocupados defendendo nossa posição que nem sequer consideramos a possibilidade de aprender.
O problema não é discordar. O problema é rejeitar antes de compreender.

Imagine um médico que recebe informações sobre um tratamento que está utilizando. Se ele se recusar a examinar qualquer informação que contrarie suas convicções, poderá deixar de reconhecer algo importante.

O conhecimento que já possui não deveria impedi-lo de continuar aprendendo.
Na vida espiritual, acontece algo semelhante.
Podemos estudar o Dhamma durante muitos anos e, ainda assim, não perceber determinadas tendências da nossa mente.

O Buddha não nos convida à obediência cega.
Uma orientação deve ser examinada. Precisamos considerar sua coerência, a intenção envolvida e suas consequências.

Há conselhos que ajudam. Outros confundem. Há correções oferecidas com cuidado e outras utilizadas para humilhar ou controlar.
A sabedoria está em reconhecer essa diferença.

O verso 77 acrescenta que quem aconselha e corrige pode ser amado por uns e rejeitado por outros.

Isso acontece porque nem sempre queremos ouvir aquilo que contraria nossos desejos ou questiona nossos comportamentos.
Entretanto, o desconforto de ouvir uma observação não demonstra, por si só, que ela esteja errada.

Podemos acolher o desconforto sem reagir imediatamente e examinar o que foi apresentado.
A humildade não consiste em pensar menos de nós mesmos, mas em não transformar aquilo que já sabemos em um obstáculo para continuar aprendendo.

Essa disposição é essencial para quem deseja desenvolver sabedoria.

HARMONIZAÇÃO PARA A PRÁTICA
Vamos nos sentar lentamente.
Mantenha a coluna ereta, sem rigidez, e deixe as mãos repousarem sobre as pernas.
Observe os pontos de contato do corpo com o chão.

Nesta prática, vamos cultivar uma disposição simples: não precisamos demonstrar que sabemos, nem provar que estamos certos.

Podemos praticar com sinceridade, reconhecendo nossos limites e respeitando os limites dos outros.

A intenção não é aceitar tudo passivamente, mas desenvolver uma atitude em que a abertura e o discernimento possam caminhar juntos.

PRECE
Que eu tenha humildade para continuar aprendendo.
Que eu reconheça as orientações que favorecem meu amadurecimento.
Que eu saiba distinguir a sabedoria da imposição.
E que meu desejo de compreender seja maior do que minha necessidade de ter razão.

SAMĀDHI
ĀNĀPĀNA-SATI — Estabilizar a atenção
Permaneça sentado e leve a atenção à respiração.
Perceba o ar entrando.
Perceba o ar saindo.
Não tente modificar o ritmo respiratório.
Apenas acompanhe o movimento natural.

Observe o início da inspiração, sua continuidade e seu término.
Depois, acompanhe a expiração da mesma maneira.
Quando perceber que a mente se afastou, reconheça a distração e retorne à respiração.

Não precisa se censurar.
O exercício consiste em perceber que a atenção se afastou e restabelecer o contato com a experiência presente.

Permaneça assim por algumas respirações.
Cada retorno é uma oportunidade de cultivar continuidade e clareza.
Silêncio.

ESCUTA — FRASE-SEMENTE
A sabedoria começa quando reconheço que ainda posso aprender.
Permita que a frase se estabeleça sem esforço.
Depois, deixe as palavras repousarem e permaneça em silêncio.

COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
Reconhecer que ainda podemos aprender não diminui nosso valor. Apenas nos torna disponíveis para ampliar nossa compreensão.

A experiência acumulada pode ser uma fonte de sabedoria, desde que não se transforme em certeza absoluta.

MEDITAÇÃO — BHĀVANĀ
Humildade e discernimento
Imagine uma balança com dois pratos.
Em um deles, coloque simbolicamente a disposição para aprender.
No outro, a capacidade de examinar aquilo que lhe é apresentado.

Se houver abertura sem discernimento, podemos aceitar orientações prejudiciais.
Se houver discernimento sem abertura, podemos rejeitar ensinamentos valiosos antes de compreendê-los.

Observe a necessidade de cultivar essas duas qualidades.
Permaneça alguns instantes com esta pergunta:
Como posso conservar a abertura para aprender e, ao mesmo tempo, examinar com clareza aquilo que aprendo?

Não procure uma resposta elaborada.
Deixe a pergunta amadurecer em silêncio.

RELAXAMENTO PROFUNDO
Repousar sem precisar compreender tudo
Deixe o corpo repousar completamente.
Relaxe os pés, as pernas e a pelve.
Solte o abdômen, o peito e os ombros.
Relaxe os braços, as mãos e o rosto.

Observe a respiração.
Durante a vida, estamos continuamente tentando compreender, resolver e decidir.

Agora, podemos suspender esse esforço por alguns instantes.
Não precisamos encontrar respostas para todas as perguntas.
Não precisamos concluir todas as reflexões.

O aprendizado também necessita de tempo para amadurecer.
Permita que o corpo descanse.
Sinta o apoio do chão.

Deixe a respiração seguir naturalmente.
Silêncio prolongado.

MENSAGEM FINAL — Levar a sabedoria para a vida
Hoje, contemplamos a importância de permanecer disponíveis para aprender.

Vimos que receber uma orientação não significa obedecer cegamente, assim como ter discernimento não significa rejeitar tudo aquilo que nos contraria.

A sabedoria exige abertura e capacidade de examinar.
Ao longo desta semana, procure levar essa compreensão para suas conversas, suas relações e suas escolhas.

Quando encontrar uma opinião diferente da sua, experimente escutar antes de concluir.

Talvez você continue discordando. Mas poderá compreender melhor aquilo que está sendo apresentado.

A prática do Dhamma não termina quando saímos da sala de Yoga. Ela continua na maneira como escutamos, avaliamos e respondemos às experiências da vida.

Que possamos cultivar a humildade de quem continua aprendendo e o discernimento de quem não entrega a própria compreensão a ninguém.

Retorno à posição sentada
Comece a movimentar suavemente os dedos das mãos e dos pés.
Vire-se para o lado direito e permaneça por alguns instantes.
Depois, retorne lentamente à posição sentada.
Observe a respiração e reconheça o estado do corpo e da mente.
Quando estiver pronto, abra os olhos.

REFLEXÃO
A diferença entre orientação e imposição
Ao longo desta semana, reserve alguns minutos para escrever em seu caderno.

O que distingue, para mim, uma orientação que favorece o amadurecimento de uma tentativa de impor uma opinião?

Considere a importância da intenção, da liberdade de examinar e das consequências daquilo que é aconselhado.
Escreva a partir de sua compreensão, sem precisar chegar a uma resposta definitiva.

EXERCÍCIO PARA A SEMANA
Escutar para compreender
Em uma conversa cotidiana, escolha conscientemente escutar o ponto de vista de outra pessoa sem interrompê-la.

Procure compreender o que ela realmente está dizendo antes de apresentar sua própria posição.
Se necessário, faça uma pergunta para esclarecer o que não entendeu.

Depois, responda com sinceridade, preservando seu discernimento.
Ao final, observe:
Consegui compreender melhor o ponto de vista da outra pessoa, mesmo que não tenha concordado com ela?