A liberdade nasce do treinamento


CONTEMPLAÇÃO DA IMAGEM

Permaneça alguns instantes diante desta imagem, em silêncio.

Observe a leveza dos pássaros e o movimento do vento. Assim também é a mente: inquieta, rápida e sempre procurando um novo lugar onde pousar.

Mas quando é acolhida com atenção, treinada com paciência e conduzida com sabedoria, ela deixa de ser fonte de agitação e torna-se um refúgio de paz.

Antes de prosseguir, pergunte a si mesmo:

Quem conduz a minha mente: os impulsos ou a consciência?

Que esta imagem inspire o cultivo de uma mente disciplinada, pois é nela que floresce a verdadeira felicidade.


INTRODUÇÃO AO TEMA
Feche suaavemente seus olhos.
Permita que o corpo seja completamente acolhido pelo chão.
Sinta o peso das pernas.
O apoio das costas.
A leveza da respiração.
Não há nada para fazer agora.
Apenas estar aqui

Imagine que você está caminhando por uma trilha em uma montanha.
Ao seu lado existe um cavalo muito bonito.
Forte.
Cheio de energia.
Mas completamente indomado.
A cada som da floresta ele muda de direção.
Corre para um lado.
Depois para outro.
Assusta-se facilmente.
Não porque seja um mau cavalo.
Mas porque ainda não aprendeu a confiar.

Você não tenta vencê-lo.
Não grita.
Não o pune.
Apenas permanece ao seu lado.
Com paciência.
Com firmeza.
Dia após dia.

Pouco a pouco, aquele animal começa a reconhecer sua presença.
Seus movimentos tornam-se menos impulsivos.

Sua força continua existindo.
Mas agora ela possui direção.

Talvez nossa mente seja muito parecida com esse cavalo.
Ela possui uma enorme energia.
Uma criatividade extraordinária.
Uma capacidade imensa de imaginar, lembrar, planejar e construir.
Mas, quando não é treinada, essa mesma energia pode nos levar para qualquer direção.

Hoje nossa prática será um convite para descobrir que o verdadeiro treinamento não diminui a força da mente.
Ele apenas lhe oferece sabedoria.

ENSINAMENTO
Há uma ideia muito comum de que liberdade significa fazer tudo aquilo que temos vontade.

Se sentimos vontade de falar, falamos.
Se sentimos vontade de comprar, compramos.
Se sentimos vontade de desistir, desistimos.
Se sentimos vontade de reagir, reagimos.

Durante muito tempo podemos acreditar que isso é liberdade.
Mas será que é?

O Buddha olha para essa questão de uma maneira muito interessante.
Ele diz que uma mente treinada produz felicidade.

Perceba que ele não diz que a felicidade depende de controlar o mundo.
Nem de fazer com que tudo aconteça exatamente como desejamos.

Ele fala de algo muito mais próximo.
Muito mais possível.
Treinar a própria mente.

Veja como isso acontece na vida cotidiana.
Às vezes alguém diz uma palavra desagradável.
Antes mesmo de percebermos, já respondemos impulsivamente.

Em outros momentos, sentimos ansiedade e imediatamente buscamos alguma distração.
Abrimos o celular.
Ligamos a televisão.
Comemos sem fome.
Falamos sem necessidade.
Não porque escolhemos.
Mas porque fomos conduzidos por um impulso.

Talvez o maior sofrimento não esteja no impulso em si.
Talvez esteja no fato de acreditarmos que somos obrigados a obedecê-lo.

O Yoga nos mostra outra possibilidade.
Entre o impulso e a ação existe um pequeno espaço.
Às vezes muito pequeno.
Quase imperceptível.
Mas ele existe.
É nesse espaço que nasce a liberdade.

Imagine alguém aprendendo a tocar um instrumento musical.
No início, cada movimento exige atenção.
Os dedos parecem desajeitados.
Tudo exige esforço.
Mas, com o treinamento, aquilo que antes parecia impossível torna-se natural.

A mente também aprende dessa maneira.
Não através da violência.
Não através da culpa.
Mas através da repetição consciente.

Cada vez que escolhemos respirar antes de reagir...
estamos treinando.
Cada vez que permanecemos um pouco mais diante do desconforto...
estamos treinando.
Cada vez que percebemos um impulso e não o seguimos imediatamente...
estamos treinando.

Talvez ninguém veja esse treinamento.
Mas ele transforma profundamente a maneira como vivemos.

Hoje nossa prática não será um exercício de controlar a mente.
Será um exercício de descobrir que não precisamos obedecer automaticamente a tudo o que ela nos pede.

Existe algo em nós que pode observar.
Pode escolher.
Pode esperar.
E, justamente por isso, pode viver com mais liberdade.

Essa é a felicidade de que o Buddha fala.
Não a felicidade que depende das circunstâncias.
Mas aquela que nasce de uma mente que aprendeu, pouco a pouco, a caminhar em harmonia consigo mesma.

SAMADHI
ĀNĀPĀNA-SATI
OBSERVANDO O ESPAÇO ENTRE AS RESPIRAÇÕES
Hoje nossa prática será muito sutil.
Não observaremos apenas a inspiração e a expiração.
Vamos perceber o pequeno silêncio que existe entre elas.

Inspire naturalmente.
Sem esforço.
Ao terminar a inspiração, perceba o breve instante de quietude antes que a expiração comece.
Depois permita que o ar saia naturalmente.
Ao final da expiração, novamente existe um pequeno momento de silêncio.

Não prolongue esse intervalo.
Não controle a respiração.
Apenas perceba que ele existe.

Esses pequenos instantes são quase imperceptíveis.
Mas eles nos ensinam algo muito precioso.
Nem tudo acontece imediatamente.
Existe sempre um espaço.

Assim como existe um espaço entre uma inspiração e uma expiração...
Também existe um espaço entre um impulso e uma ação.

Sempre que a mente se distrair, volte delicadamente para esse pequeno intervalo de silêncio.
Sem pressa.
Sem esforço.
Apenas percebendo.

ESCUTA
FRASE-SEMENTE
"Posso escolher antes de agir."

COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE

Talvez esta seja uma das descobertas mais importantes da prática.
Nem tudo o que pensamos precisa ser dito.
Nem tudo o que sentimos precisa ser seguido.
Nem tudo o que desejamos precisa ser realizado imediatamente.

Durante muitos anos podemos acreditar que somos obrigados a obedecer aos impulsos da mente.

Mas o Buddha nos mostra outra possibilidade.
Existe uma consciência capaz de observar.
Uma presença capaz de esperar.
Uma sabedoria capaz de escolher.

Quando repetimos silenciosamente:
"Posso escolher antes de agir."
não estamos tentando controlar a mente.
Estamos apenas lembrando que existe liberdade.

Liberdade para respirar antes de responder.
Liberdade para permanecer antes de desistir.
Liberdade para observar antes de reagir.

Durante a meditação, talvez muitos impulsos apareçam.
Talvez surja vontade de mudar de posição.
Talvez venha uma coceira.
Talvez um pensamento pareça urgente.

Hoje, antes de seguir qualquer um desses movimentos, apenas observe.
Respire.
E descubra como é permanecer por mais um instante.

MEDITAÇÃO (BHĀVANĀ)
Permaneça sentado de forma estável.
Permita que a coluna cresça naturalmente.
Relaxe o rosto.
Relaxe a mandíbula.
Suavize a respiração.

Leve a atenção para o fluxo natural do ar.
Perceba a inspiração.
Perceba a expiração.
E, delicadamente, observe o pequeno silêncio que existe entre elas.
(Pausa)

Talvez um pensamento apareça.
Não o rejeite.
Não o siga.
Apenas perceba que ele surgiu.

Talvez apareça vontade de abrir os olhos.
De ajustar o corpo.
De terminar logo a meditação.
Antes de agir...
Respire.
Observe.
Espere apenas mais um instante.

Em alguns momentos, repita silenciosamente:
"Posso escolher antes de agir."

Permita que essas palavras desçam da mente para a experiência.
Não como uma ideia.
Mas como uma descoberta.
Existe um espaço entre o impulso e a ação.
Nesse espaço existe liberdade.

Permaneça alguns minutos habitando esse espaço.
Respirando.
Observando.
Escolhendo.
Sem tensão.
Sem esforço.
Com serenidade.

Hoje, talvez a maior prática não seja permanecer completamente imóvel.
Talvez seja descobrir, pela própria experiência, que você não precisa seguir imediatamente tudo aquilo que a mente lhe pede.
Porque é nesse instante de consciência que começa a verdadeira liberdade.

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