Do caminho do ganho ao caminho do Nirvana


CONTEMPLAÇÃO DA IMAGEM

Contemple os dois caminhos. Um nos convida a buscar reconhecimento e acumular conquistas; o outro nos convida a olhar para dentro e descobrir o que realmente liberta a mente.

Diante de cada escolha, pergunte a si mesmo: estou alimentando o desejo de conquistar ou cultivando a liberdade de deixar ir?

INTRODUÇÃO AO TEMA 
Vamos nos deitar confortavelmente.
Feche os olhos e permita que o corpo encontre o chão.
Não precisamos começar esta prática procurando alguma coisa para corrigir em nós.

Hoje, vamos simplesmente observar uma questão que acompanha toda a nossa existência: a direção para a qual estamos caminhando.

Imagine que você está diante de uma estrada.
Ela atravessa uma paisagem ampla, com muitas possibilidades.
Existem caminhos que prometem conforto, segurança, reconhecimento e realizações.

Outros parecem menos atraentes à primeira vista. Não oferecem tantas garantias e talvez exijam que abandonemos algumas coisas às quais estamos acostumados.

Agora, imagine que você precisa escolher uma direção.
Não é necessário decidir imediatamente.
Apenas observe o que acontece dentro de você quando pensa em seguir por um caminho ou por outro.

O que desperta seu interesse?
O que lhe oferece segurança?
O que você teme perder?

E existe alguma coisa que, embora seja importante para você, já não parece conduzi-lo na direção que deseja seguir?
Permaneça alguns instantes com essas perguntas.

A vida é feita de escolhas, mas nem sempre percebemos que cada escolha também nos conduz para algum lugar.
Às vezes, estamos tão envolvidos com as tarefas do dia que deixamos de perguntar para onde nossas escolhas estão nos levando.

Hoje, não vamos examinar principalmente o que fazemos de certo ou errado.
Vamos olhar para algo mais amplo:
Que direção estou dando à minha vida?

Respire tranquilamente.
Deixe essa pergunta acompanhar você durante a prática.

ENSINAMENTO
Dois caminhos, duas orientações para a vida

Vamos ouvir o último verso deste capítulo (5) do Dhammapada.
Verso 75
“Um é o caminho que leva ao ganho, outro o caminho que leva ao Nirvana (A Suprema paz); se o praticante compreende isso, ele não busca honra, mas se dedica ao desapego do mundo.”

O verso nos apresenta uma distinção fundamental.
Existe o caminho orientado pelo ganho e existe o caminho orientado pela libertação.
Precisamos compreender essa diferença com cuidado.

O Buddha não está dizendo que precisamos abandonar todas as atividades do mundo, deixar de trabalhar ou recusar aquilo de que necessitamos para viver.
Precisamos de alimento, abrigo, relações e condições adequadas para cuidar do corpo.

O problema não está em possuir essas condições.
A questão é outra: quando aquilo que buscamos se torna a principal medida de nossas escolhas, o que acontece com a nossa liberdade?

Podemos passar muitos anos construindo uma vida.
Trabalhamos, organizamos nossos compromissos, cuidamos da família, desenvolvemos capacidades e procuramos melhorar nossas condições de existência.
Tudo isso pode ter seu lugar.

Mas, em algum momento, precisamos perguntar se estamos apenas acrescentando coisas à nossa vida ou se também estamos desenvolvendo a capacidade de viver com maior liberdade interior.

Porque podemos conquistar muitas coisas e continuar sentindo que falta alguma coisa.
Podemos alcançar uma meta e, pouco depois, precisar de outra.
Podemos realizar um desejo e descobrir que a satisfação durou menos do que imaginávamos.
E então começamos novamente.

Não há necessariamente nada de errado em estabelecer objetivos. A questão é perceber se nossa vida inteira está organizada em torno de alcançar o próximo objetivo.

Nesse movimento, podemos adiar indefinidamente aquilo que realmente importa.
Pensamos que teremos tempo para meditar quando o trabalho estiver mais tranquilo.
Que poderemos cuidar melhor da mente quando resolvermos determinada situação.
Que conseguiremos viver com mais simplicidade quando tivermos alcançado uma segurança maior.

Mas a vida continua acontecendo enquanto esperamos.
E talvez o momento de praticar nunca seja tão perfeito quanto imaginamos.

O caminho do Nirvana, apresentado pelo Buddha, aponta para outra orientação.
Não se trata simplesmente de obter mais uma conquista, mas de compreender e abandonar as condições que alimentam o sofrimento.
Isso exige uma mudança na maneira como utilizamos nosso tempo, nossa energia e nossa atenção.
Precisamos reconhecer o que favorece a libertação e o que nos mantém presos.

E essa investigação pode começar nas escolhas mais comuns.
Como utilizamos as horas do dia?
A que damos prioridade quando temos muitas coisas para fazer?
O que consideramos indispensável?
O que continuamos perseguindo apenas porque nos acostumamos a desejar?
E o que estamos sempre deixando para depois?

Quando escolhemos uma direção, precisamos aceitar que algumas outras ficarão para trás.
E existe uma pergunta que pode nos ajudar:
O que estou alimentando hoje que me afasta da vida que desejo cultivar?

O caminho não precisa ser percorrido com violência contra nós mesmos.
Precisamos apenas começar a reconhecer a diferença entre aquilo que nos ocupa e aquilo que verdadeiramente nos orienta.

A prática do Dhamma não precisa ficar reservada para um futuro ideal.
Ela pode participar da maneira como atravessamos este dia.
Na forma como utilizamos o tempo.
Na maneira como cuidamos das nossas responsabilidades.
Naquilo que escolhemos alimentar e naquilo que aprendemos a deixar ir.

Este é o encerramento do Bālavagga, o capítulo do Dhammapada dedicado ao tolo.
Ao longo das aulas, observamos diferentes formas de não compreender: viver sem despertar, escolher mal nossas companhias, confundir posse com segurança, não reconhecer nossos limites, permanecer na superfície dos ensinamentos, alimentar ações prejudiciais e nos deixar conduzir por diferentes formas de apego.

Agora, chegamos a uma questão que reúne todo esse percurso:
Depois de reconhecer essas tendências, para onde escolhemos caminhar?

Compreender nossas dificuldades é importante.
Mas a compreensão precisa participar das nossas escolhas.
E cada escolha pode nos aproximar ou nos afastar da direção que desejamos seguir.

Vamos permanecer alguns instantes em silêncio.
Não precisamos encontrar uma resposta definitiva.
Basta começar a olhar para a própria vida com essa pergunta: para onde escolhemos caminhar?

HARMONIZAÇÃO PARA A PRÁTICA
Vamos nos sentar lentamente.
Encontre uma posição em que a coluna possa permanecer ereta, mas sem rigidez.
As mãos repousam sobre as pernas.
Os ombros estão soltos.
Observe o corpo e perceba os pontos de contato com o chão.

Agora, imagine que sua vida é uma caminhada.
Não precisamos imaginar uma paisagem especial.
Apenas reconheça que existe uma direção construída pelas pequenas escolhas que fazemos.
Cada dia acrescenta alguma coisa a essa caminhada.

Algumas escolhas nos aproximam daquilo que consideramos essencial.
Outras nos afastam.
E muitas vezes seguimos por hábito, sem verificar a direção.

Nesta harmonização, não vamos procurar mudar nada imediatamente.
Vamos apenas recuperar a capacidade de perceber.
Sinta os pés.
Sinta a coluna.
Observe a respiração.
Permita que a atenção se reúna no momento presente.

Não precisamos resolver a vida inteira nesta manhã, nesta tarde ou nesta noite.
Precisamos apenas estar suficientemente presentes para reconhecer o próximo passo.

Respire tranquilamente.
E prepare-se para praticar sem pressa, sem transformar a aula em uma meta a ser conquistada.

PRECE
Que eu possa reconhecer a direção que estou dando à minha vida.
Que eu saiba distinguir aquilo que apenas ocupa meu tempo daquilo que verdadeiramente contribui para a libertação.
Que eu não adie indefinidamente a prática, esperando por condições perfeitas.
Que eu encontre coragem para deixar de alimentar aquilo que me afasta do caminho.
Que minha renúncia não nasça da aversão à vida, mas da compreensão do que merece ser cultivado.
Que eu saiba cuidar das minhas responsabilidades sem me perder nelas.
Que minhas escolhas sejam orientadas pela sabedoria, pela compaixão e pelo discernimento.
E que, pouco a pouco, eu aprenda a dedicar minha vida àquilo que conduz à liberdade interior.

SAMADHI
ĀNĀPĀNA-SATI — ATENÇÃO À RESPIRAÇÃO
Permaneça sentado.
Nesta prática, vamos observar a respiração como uma experiência que se desenvolve momento a momento.

Comece percebendo o início da inspiração.
Acompanhe sua continuidade.
Perceba quando ela termina.
Depois, observe o início da expiração.
Acompanhe sua continuidade.
Perceba quando ela termina.
Não tente prolongar nenhuma das fases.
Apenas reconheça o percurso completo da respiração.

Agora, observe se a mente tenta chegar rapidamente ao próximo momento.
Talvez queira terminar a inspiração para começar a expiração.
Talvez queira terminar a expiração para voltar a inspirar.
Não há problema nisso.

Reconheça essa tendência e retorne à experiência que está acontecendo.
A respiração nos oferece uma oportunidade de permanecer com o momento presente sem precisar antecipar continuamente aquilo que vem depois.

Continue acompanhando algumas respirações completas.
Inspiração.
Expiração.
Uma experiência se completa e outra começa.

Não precisamos transformar cada instante em um meio para chegar a alguma coisa.
Podemos aprender a estar presentes no próprio percurso.
Permaneça em silêncio.

ESCUTA
FRASE-SEMENTE
“Que minhas escolhas me aproximem da liberdade.”

Repita mentalmente essa frase algumas vezes.
Não como uma promessa de que tudo será diferente a partir de agora.
Apenas como uma orientação.
Que minhas escolhas me aproximem da liberdade.
Permita que essa intenção acompanhe a respiração.

COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
Nossas escolhas, quando repetidas, constroem a direção da nossa vida. Por isso, não basta perguntar o que desejamos alcançar, mas também para onde nossas escolhas nos conduzem.

Não precisamos abandonar tudo o que pertence à vida cotidiana, mas aprender a estabelecer prioridades, simplificar compromissos e reservar espaço para a prática e o cultivo da sabedoria.

A liberdade começa quando deixamos de agir apenas por hábito, urgência ou desejo de obter algo.
A pergunta é: que maneira de viver estou construindo com as escolhas que faço?

MEDITAÇÃO — BHĀVANĀ
A direção da minha vida
Feche os olhos e acompanhe algumas respirações.
Recorde os últimos sete dias e observe como distribuiu seu tempo e sua energia.

Pergunte a si mesmo:
O que teve prioridade na minha vida?

Agora, considere:
O que considero essencial, mas não encontrou espaço suficiente?
Observe sem culpa ou julgamento.

Por fim, pergunte:
Qual pequena mudança pode aproximar minhas escolhas da direção que desejo seguir?
Escolha uma possibilidade concreta e permaneça alguns instantes em silêncio.
Depois, retorne suavemente à respiração.

RELAXAMENTO PROFUNDO
Deixe o corpo repousar completamente.
Relaxe os pés.
Solte as pernas.
Permita que a pelve encontre o chão.
Relaxe o abdômen.
Solte o peito.
Deixe os ombros repousarem.
Relaxe os braços e as mãos.
Solte o rosto.

Agora, não há caminho a percorrer.
Não há meta a alcançar.
Não há decisão a tomar neste instante.
Apenas permita que o corpo descanse.
Talvez tenhamos passado muito tempo tentando chegar a algum lugar.
Talvez tenhamos dedicado energia a objetivos que pareciam indispensáveis.
Não precisamos resolver tudo agora.
Podemos apenas reconhecer que a vida está acontecendo neste momento.

E que o caminho também é feito destes instantes em que paramos, respiramos e recuperamos a capacidade de perceber.
Não tente produzir uma experiência especial.
Não procure uma sensação de libertação.
Descanse.
Silêncio prolongado.

MENSAGEM FINAL
Comece a movimentar suavemente os dedos das mãos e dos pés.
Vire-se para o lado direito e permaneça nessa posição por alguns instantes.

Nossas escolhas constroem a direção da nossa vida. A liberdade começa quando reconhecemos o que é essencial e fazemos espaço para isso.

Não precisamos mudar tudo de uma vez. Uma pequena escolha consciente, mantida com continuidade, pode transformar nosso caminho.

Que possamos cuidar da vida presente sem perder de vista a liberdade que o Dhamma nos convida a compreender.

Respire tranquilamente e retorne devagar à posição sentada.

REFLEXÃO
Ao longo desta semana, reserve um momento para escrever em seu caderno:
Se eu observar a maneira como utilizo meu tempo e minha energia, que direção minhas escolhas estão dando à minha vida?

Procure responder a partir de situações concretas.
Não escreva apenas aquilo que gostaria que fosse verdade.
Observe o que suas escolhas efetivamente revelam.

EXERCÍCIO PARA A SEMANA
Uma escolha que aproxima
Escolha uma prática importante para seu desenvolvimento interior e reserve um momento concreto da semana para realizá-la.
Observe o que acontece quando outras tarefas disputam esse tempo.

Ao final, reflita:
“O que aprendi sobre minhas prioridades e a direção que desejo seguir?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário