Permaneça alguns instantes com esta imagem, em silêncio.
Assim como você deseja ser feliz e livre do sofrimento, todos os seres também desejam.
O “eu” que protegemos com tanto esforço não é mais importante que os outros.
Sinta isso no coração, além das ideias.
Talvez aqui comece a verdadeira transformação.
INTRODUÇÃO AO TEMA
Sente-se a partir da postura tradicional do sentar: aproxime seus pés do quadril... erga e alinhe a sua coluna... relaxe seus ombros... abra seu coração com suavidade -sem rigidez - ... repouse suas mãos sobre os joelhos... alinhe sua cabeça, levando o queixo um pouquinho para dentro... toque a ponta da língua no céu da boca – logo atrás da raiz dos dentes superiores da frente - ... repouse seus olhos entreabertos na direção do solo.
Hoje, o nosso tema é profundo… e transformador… “Lamrim: trocar eu pelos outros…”
Talvez, ao ouvir isso… a mente estranhe… “Trocar eu pelos outros?” “Deixar de pensar em mim?”
Esse é um convite a perceber algo muito mais profundo…
E talvez até surja uma resistência sutil… um medo silencioso…
“Se eu deixar de pensar em mim… quem vai cuidar de mim?” “Será que eu vou me perder?”
Sinta isso… não se afaste da sensação que surge ao ouvir isso… não corrija… apenas reconheça…
Porque essa reação é natural…
Durante toda a vida… fomos condicionados a nos colocar no centro… a proteger esse “eu” … a fortalecer essa identidade que construímos…
Mas aqui… o ensinamento não está pedindo que você se abandone…
Não é sobre se apagar… não é sobre se sacrificar… não é sobre se tornar menos importante…
É sobre ver mais profundamente…
Ver que esse “eu” que você tenta proteger… não é tão sólido quanto parece…
Observe…
Esse “eu” muda o tempo todo… nos pensamentos… nas emoções… nas sensações…
Às vezes você se sente forte… às vezes vulnerável… às vezes confiante… às vezes perdido…
Qual desses é o “eu verdadeiro”?
Sinta…
Talvez… esse “eu” seja mais como um fluxo do que como algo fixo… você já pensou nisso?
E se isso for verdade… então o que exatamente estamos protegendo com tanta força?
Agora… vá ainda mais fundo…
Perceba que, assim como você… todos os outros também vivem dentro dessa experiência…
Também sentem medo… também buscam segurança… também querem ser felizes… também tentam evitar a dor…
E aqui… algo começa a mudar…
Porque, quando você olha com sinceridade… não há uma diferença essencial entre você e o outro…
A dor do outro… dói para ele… assim como a sua dor dói para você…
A alegria do outro… é preciosa para ele… assim como a sua alegria é para você…
Então… o que significa “trocar eu pelos outros”?
Não é literalmente se tornar o outro…, mas é inverter a lógica habitual da mente…
Ao invés de colocar sempre “eu primeiro” … começar a incluir o outro…
Começar a sentir o outro…
Começar a reconhecer que o centro não é fixo…
No Yoga Tibetano, isso pode ser sentido diretamente…
Quando o corpo relaxa profundamente… as fronteiras começam a se dissolver…
O dentro e o fora… ficam menos rígidos…
E, nesse espaço… o outro deixa de ser tão “outro” … e passa a ser uma expressão da mesma vida…
Trocar eu pelos outros é isso…
É sair da contração do ego… e entrar na expansão da consciência…
Não é perder a si mesma(o)… é deixar de estar presa(o) a uma versão limitada de si mesma(o)…
Respire…
Sinta o corpo…
Sinta o espaço ao seu redor…
E talvez… por um instante… você possa perceber…
Que há mais conexão do que separação…
Mais continuidade do que divisão…
E, nesse reconhecimento… algo se suaviza…
Algo se abre…
E o caminho da compaixão começa a surgir… naturalmente…
Permita que esse ensinamento comece a se revelar… não como ideia…, mas como experiência…
ENSINAMENTO PROFUNDO
No Lamrim… trocar eu pelos outros é uma das práticas mais profundas do caminho…
Ela surge depois de reconhecer que todos querem felicidade… e evitar o sofrimento…
E então… um passo além acontece…
Você começa a questionar…
Por que a minha felicidade seria mais importante… do que a dos outros?
Sinta isso como investigação…
O apego ao “eu” … é o centro do sofrimento…
Quando você entende isso profundamente, o coração naturalmente se expande.
O Buddha ensinou:
“Tudo o que surge, surge em dependência de causas e condições.”
(Paticca-samuppada)
Aqui está o ponto principal...
Por exemplo… um pensamento surge em sua mente por causa das situações que você experienciou... por causa das memórias que você carrega....
As emoções… elas surgem por causa das sensações que a mente vai interpretando como agradáveis ou desagradáveis...
E isso também vale para o que chamamos de “eu”.
O “eu” não é algo fixo e permanente… ele é formado por um corpo (forma) e uma mente (um conjunto formado por sensações, pensamentos, formações mentais e consciência) que estão sempre mudando.
Ou seja… o “eu” não é uma coisa fixa… é um processo acontecendo o tempo todo.
Mas a gente se esquece disso ou nem vê assim… e passa a acreditar que existe um “eu” sólido, fixo, que precisa ser defendido.
E é aí que surge o apego… o medo… o sofrimento.
Quando começamos a ver que o “eu” é uma construção… algo mais leve acontece… Eu não tento mais segurar ou defender com tanta raiva uma identidade que é transitória (eu professor... eu marido de fulana... eu vegetariano, eu budista). Tudo isso está em constante mudança... e se isso muda o tempo todo, amanhã eu posso não estar mais vestindo nenhuma dessas fantasias, entende isso? posso não ser mais o professor, o marido de fulana, nem vegetariano, nem budista.
Se eu entendo isso, eu vou desfrutar do momento com uma mente livre... vou desfrutar as experiências e sensações que surgem por estar vestido com essas fantasias, mas sem me apegar, sem me agarrar, sem defender com tanta agressividade algo que é apenas uma fantasia de momento.
Porque se o “eu” fosse algo fixo, eu seria sempre o professor de Yoga, seria sempre o marido da fulana, seria sempre vegetariano e seria sempre budista. Mas eu vesti outras fantasias! Então, quem sou eu? Qual fantasia eu sou? Nenhuma me define completamente - É a resposta! Todas são experiências que surgem e passam... esse eu, foi construído e desconstruído várias vezes...
Nenhuma dessas identidades é você de forma definitiva.
“Você é um fluxo de experiências em constante mudança… influenciado pelo que já viveu…, mas também sendo criado agora, a cada pensamento, a cada ação.
O passado te condiciona…, mas o presente te transforma.”
Com essa mente livre, a gente começa a se soltar… a mente fica menos defensiva e a liberdade começa a aparecer.
Podemos sentir isso...
Quando você relaxa profundamente… as fronteiras internas começam a suavizar…
Tarthang Tulku ensina:
“Quando a experiência se torna aberta e relaxada, a separação entre eu e outros começa a se dissolver”.
(Kum Nye Relaxation)
Sinta isso…
Talvez, neste momento… você possa perceber…
Que a respiração que entra… não pertence a você…
Ela vem do mundo…
E volta para o mundo…
Não há separação real…
Comece a se perceber como parte de um todo…
Isso muda tudo…
Você não perde… você se expande…
Respire…
Sinta o corpo…
Sinta o espaço…
E talvez… algo comece a se suavizar…
PRECE
Leve as mãos ao coração…
E, internamente, recite…
Que eu possa reconhecer a igualdade entre mim e os outros… e abrir o coração para além do ego…
Que eu possa desenvolver a coragem de trocar eu pelos outros… com sabedoria e compaixão…
Que essa prática beneficie todos os seres… sem exceção…
Que todos possam ser livres… e encontrar verdadeira felicidade…
SAMADHI
ANAPANA-SATI
Observar a respiração...
ESCUTA
“Assim como eu cuido de mim, posso aprender a cuidar dos outros como a mim mesmo.”
COMPREENSÃO
Observe essa frase…
“Assim como eu cuido de mim…”
Você naturalmente busca se proteger… cuidar… evitar dor…
Isso é humano…
“…posso aprender…”
Não é automático… é um caminho… um treinamento…
“…a cuidar dos outros…”
Ampliar esse cuidado…
Não apenas para quem você gosta…, mas para todos…
“…como a mim mesmo.”
Aqui está o ponto essencial…
Não é se abandonar… é incluir…
Incluir o outro no mesmo campo de importância…
Quando isso acontece…
O coração se expande…
E a separação diminui…
MEDITAÇÃO / BHAVANA por 15 minutos
Feche os olhos…
Sente-se com estabilidade…
Leve a atenção para a respiração…
Sinta o ar entrando…
Sinta o ar saindo…
Agora… traga a atenção para você…
Sinta o seu desejo de bem-estar…
Sem palavras… apenas sinta…
Agora… imagine esse cuidado se expandindo…
Como um campo…
Inclua alguém querido…
Sinta…
O desejo de que essa pessoa esteja bem…
Agora… inclua alguém neutro…
Sinta…
Essa pessoa também deseja felicidade…
Agora… inclua alguém difícil…
Com suavidade… sem forçar…
Veja…
Essa pessoa também quer ser feliz…
Agora… suavemente…
Comece a trocar…
Imagine que você oferece seu bem-estar… sua paz…
E acolhe o sofrimento do outro… com compaixão…
Sem medo…
A respiração pode ajudar…
Ao inspirar… acolha o sofrimento de todos os seres…
Ao expirar… ofereça seu bem estar para todos os seres…
Permaneça…
Nesse fluxo…
Sem esforço…
Apenas sentindo…
RELAXAMENTO
Agora… lentamente… deite-se novamente…
Solte completamente o corpo…
Como se estivesse sendo acolhido pela terra…
Respire profundamente uma vez…
E solte pela boca…
Agora… não há prática…
Apenas sentir…
Sinta o corpo como espaço…
Sinta a respiração fluindo…
E talvez… perceba…
Que não há fronteira clara entre dentro e fora…
Quando relaxamos profundamente… a separação se dissolve…
E a experiência se torna ampla…
Inclusiva…
Livre…
Permaneça…
MENSAGEM FINAL
Permaneça por alguns instantes…
E, quando estiver pronto… comece a mover o corpo suavemente…
E leve essa compreensão com você…
Trocar-se pelos outros… não é perder a si mesmo…
É descobrir… que o “si mesmo” nunca foi limitado…
Como disse Shantideva:
“Quando abandonamos a preocupação exclusiva conosco, surge a verdadeira liberdade.”
(Bodhicaryavatara)
E como ensinou o Dalai Lama:
“A compaixão é a base da felicidade.”
(The Art of Happiness)
Que você possa continuar essa prática…
Expandindo o coração… suavizando a separação…
E vivendo… com mais abertura… mais presença… e mais amor…
Até o próximo encontro…
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