Permaneça alguns instantes com esta imagem, em silêncio.
Observe a ilha. Ao seu redor, as águas se agitam, os ventos sopram e as ondas se levantam. No entanto, seu fundamento permanece firme.
Assim também pode tornar-se a nossa mente.
As circunstâncias da vida nem sempre estarão sob nosso controle, mas podemos construir, pouco a pouco, um refúgio interior sustentado pela vigilância, pela disciplina e pela serenidade.
Antes de seguir para este ensinamento, pergunte a si mesmo:
Sobre o que tenho construído a minha vida: sobre as ondas que passam ou sobre uma base que permanece?
Que esta imagem desperte em você a confiança de que a verdadeira segurança não está no mundo ao redor, mas na estabilidade da mente desperta.
CAPÍTULO 2 — APPAMĀDAVAGGA
A ILHA INABALÁVEL
Verso 25
"Despertando-se, sendo vigilante, disciplinado e contido, o sábio constrói para si uma ilha que nenhuma inundação pode submergir."
Tema da Aula:
Refúgio Interior
INTRODUÇÃO AO TEMA
Deite-se confortavelmente.
Permita que o peso do corpo seja entregue ao chão.
Feche suavemente os olhos.
Não tente relaxar.
Apenas permita que a respiração aconteça.
(Pausa)
Agora imagine o mar.
Em alguns dias ele está completamente calmo.
Em outros, as ondas são fortes.
O vento muda.
A maré muda.
O céu muda.
Tudo está em constante movimento.
Agora imagine uma pequena ilha.
As ondas chegam.
A chuva cai.
O vento sopra.
Mas a ilha permanece.
Veja que interessante.
Talvez todos nós passemos boa parte da vida procurando uma ilha.
Um lugar seguro.
Algo que nos dê estabilidade.
Às vezes acreditamos que essa segurança está no dinheiro.
Outras vezes, nas pessoas que amamos.
No trabalho.
Na saúde.
Na juventude.
No reconhecimento.
Mas basta algum acontecimento inesperado para percebermos que tudo isso pode mudar.
Então surge uma pergunta muito importante.
Existe alguma segurança que não dependa das circunstâncias?
É justamente sobre isso que o Buddha compartilha no verso de hoje
Respire profundamente.
E apenas permita que essa pergunta permaneça dentro de você.
Onde está meu verdadeiro refúgio?
ENSINAMENTO
O Buddha diz:
"Despertando-se, sendo vigilante, disciplinado e contido, o sábio constrói para si uma ilha que nenhuma inundação pode submergir."
Eu gosto muito deste verso.
Talvez seja uma das imagens mais bonitas de todo o Dhammapada.
Porque o Buddha não promete impedir as tempestades.
Ele sabe que elas continuarão existindo.
A vida continuará mudando.
As pessoas continuarão mudando.
Nosso corpo continuará mudando.
As emoções continuarão mudando.
A impermanência continuará fazendo parte da existência.
Então o Buddha não pergunta:
"Como impedir a tempestade?"
Ele pergunta:
"Como construir algo que permaneça firme durante a tempestade?"
Veja como isso muda completamente nossa maneira de olhar a prática.
Durante muito tempo acreditamos que paz é uma vida sem problemas.
Mas talvez paz seja outra coisa.
Talvez paz seja permanecer inteiro mesmo quando os problemas aparecem.
Talvez paz seja descobrir um lugar dentro de nós que continua estável mesmo quando tudo parece instável.
O Buddha começa dizendo:
"Despertando-se..."
É bonito perceber que o despertar nunca termina.
Todos os dias acordamos.
Todos os dias esquecemos.
Todos os dias voltamos.
A prática espiritual não acontece porque nunca mais nos distrairemos.
Ela acontece porque aprendemos a retornar.
Esse retorno vai fortalecendo algo dentro de nós.
Depois ele diz:
"Sendo vigilante..."
Veja que interessante.
A vigilância aqui já não aparece como tema principal.
Ela aparece como ferramenta.
É ela que nos mostra quando estamos sendo levados pelo medo.
Quando estamos tentando controlar aquilo que não pode ser controlado.
Quando estamos procurando segurança em lugares que mudam o tempo todo.
Sem vigilância, continuamos procurando estabilidade onde ela nunca poderá existir.
Com vigilância, começamos a procurar em outro lugar.
Dentro.
Depois o Buddha fala:
"Disciplinado e contido."
Essas duas palavras podem parecer duras.
Mas eu entendo que elas falem de cuidado.
Disciplina é continuar regando uma planta mesmo nos dias em que ela ainda não floresceu.
É confiar no processo.
É lembrar diariamente da direção escolhida.
Contenção também não significa reprimir.
Significa não ser arrastado por tudo aquilo que aparece na mente.
O medo aparece.
Mas não precisa comandar a vida.
A ansiedade aparece.
Mas não precisa decidir nossos passos.
A tristeza aparece.
Mas não define quem somos.
Existe um espaço muito bonito entre sentir uma emoção e ser dominado por ela.
A prática vai ampliando esse espaço.
E então chegamos ao coração do verso.
"O sábio constrói para si uma ilha."
Perceba que o Buddha não diz que alguém entrega essa ilha.
Ela é construída.
Pouco a pouco.
Respiração após respiração.
Escolha após escolha.
Cada vez que voltamos para a presença, colocamos uma pedra nessa ilha.
Cada vez que escolhemos responder em vez de reagir, essa ilha fica mais firme.
Cada vez que praticamos mesmo sem vontade, essa ilha cresce um pouco mais.
Veja que bonito.
O refúgio não aparece de repente.
Ele vai sendo construído.
Talvez você já tenha percebido isso.
Existem pessoas que passam por situações extremamente difíceis e, mesmo assim, transmitem serenidade.
Não porque suas vidas sejam perfeitas.
Mas porque construíram um lugar de estabilidade dentro delas.
Essa estabilidade não nasceu em um único dia.
Foi cultivada.
Foi praticada.
Foi amadurecendo lentamente.
Thich Nhat Hanh dizia:
"A verdadeira casa está dentro de nós."
Eu gosto muito dessa frase.
Porque ela lembra exatamente esta ilha descrita pelo Buddha.
Passamos anos tentando organizar o mundo inteiro para finalmente sentir paz.
Mas o Buddha propõe outro caminho.
Construa primeiro uma mente estável.
Depois você descobrirá que consegue atravessar o mundo de uma maneira completamente diferente.
É justamente isso que experimentamos no Yoga Budista.
Quando o corpo relaxa profundamente.
Quando a respiração encontra seu ritmo.
Quando a mente desacelera.
Existe um instante em que percebemos algo muito simples.
A paz não veio de fora.
Ela já estava aqui.
Apenas estava escondida sob a tensão.
Sob o medo.
Sob a agitação.
Talvez seja exatamente isso que o Buddha esteja ensinando.
A ilha sempre pode ser construída.
Independentemente da idade.
Independentemente da história.
Independentemente das tempestades que já vivemos.
Porque essa ilha não pertence ao passado.
Ela começa exatamente aqui.
Nesta respiração.
Neste momento.
Neste retorno.
E então o Buddha termina dizendo:
"...que nenhuma inundação pode submergir."
Veja que bonito.
As inundações continuarão existindo.
Mas você já não será levado por elas da mesma maneira.
Porque existe um lugar dentro de você que aprendeu a permanecer.
E talvez seja justamente isso que chamamos de prática.
Não impedir as ondas.
Mas aprender a permanecer presente enquanto elas passam.
SAMADHI
ANAPANA-SATI
Observar a respiração
ESCUTA / FRASE-SEMENTE
"O sábio constrói para si uma ilha que nenhuma inundação pode submergir."
(Dhammapada 25)
COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
A verdadeira segurança não nasce quando controlamos o mundo.
Ela nasce quando cultivamos uma mente estável diante das mudanças do mundo.
Essa estabilidade é construída pouco a pouco.
Ela cresce a cada momento de presença.
A cada retorno.
A cada escolha baseada no Dhamma.
MEDITAÇÃO — BHAVANA
Feche novamente os olhos.
Observe a respiração.
Imagine uma pequena ilha tranquila.
Sente-se sobre ela.
Observe as ondas indo e vindo.
Observe o vento.
Observe as nuvens.
Nada precisa parar.
Nada precisa desaparecer.
Apenas permaneça presente.
Agora pergunte silenciosamente:
Onde tenho procurado segurança?
Observe.
Depois pergunte:
O que significa, para mim, construir essa ilha interior?
Permaneça apenas respirando.
Sem procurar respostas rápidas.
Talvez o próprio silêncio já seja uma resposta.
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