Permaneça alguns instantes diante desta imagem, em silêncio.
Observe os dois caminhos: de um lado, o fogo do ódio; do outro, a serenidade que nasce quando deixamos de alimentá-lo.
Pergunte a si mesmo:
Que sentimento continuo alimentando dentro de mim?
Talvez a liberdade não esteja em fazer o outro mudar, mas em interromper, dentro de nós, aquilo que mantém o conflito vivo.
O ódio cessa quando deixamos de lhe oferecer alimento.
Sente-se a partir da postura tradicional do sentar
Permita que o corpo encontre uma posição em que possa permanecer por alguns instantes sem precisar mudar nada.
Feche os olhos.
E imagine que você está caminhando por uma antiga estrada de terra.
Uma estrada silenciosa.
Talvez seja o final da tarde.
O vento sopra suavemente.
Você caminha sozinho.
E enquanto caminha, percebe que está carregando uma mochila.
Uma mochila muito pesada.
No início parece normal.
Mas, à medida que continua caminhando, percebe que o peso aumenta.
Os ombros ficam cansados.
O pescoço endurece.
A respiração fica curta.
Então você abre a mochila.
E descobre algo surpreendente.
Ela não está cheia de pedras.
Está cheia de lembranças.
Palavras que machucaram.
Injustiças.
Abandonos.
Decepções.
Mágoas.
Ressentimentos.
Feridas antigas que você continua carregando.
Respire profundamente.
Talvez hoje não seja necessário jogar tudo fora.
Mas talvez seja possível olhar para esse peso de forma diferente.
Talvez seja possível compreender algo que o Buddha ensinou há mais de dois mil e quinhentos anos.
Um ensinamento simples.
Profundo.
Transformador.
O Buddha disse:
“Ele me insultou. Ele me feriu. Ele me derrotou. Ele me roubou. Naqueles que alimentam tais pensamentos, o ódio não cessa.”
— Dhammapada, verso 3
Respire lentamente.
Observe.
Talvez o sofrimento não esteja apenas naquilo que aconteceu.
Talvez esteja na repetição.
Na lembrança constante.
Na história que continua sendo contada internamente.
Hoje iremos investigar isso.
Não para negar a dor.
Não para fingir que nada aconteceu.
Mas para descobrir se existe um caminho de liberdade.
ENSINAMENTO PROFUNDO
Os versos 3, 4 e 5 do Dhammapada estão entre os mais importantes de toda a literatura budista.
Eles dizem:
“Ele me insultou. Ele me feriu. Ele me derrotou. Ele me roubou. Naqueles que alimentam tais pensamentos, o ódio não cessa.”
“Ele me insultou. Ele me feriu. Ele me derrotou. Ele me roubou. Naqueles que não alimentam tais pensamentos, o ódio cessa.”
“O ódio jamais cessa pelo ódio. O ódio cessa somente pelo não-ódio. Esta é uma lei eterna.”
— Dhammapada, versos 3, 4 e 5
Respire profundamente.
Observe a radicalidade desse ensinamento.
O Buddha não está dizendo que ninguém nos machuca.
Não está dizendo que não existe injustiça.
Não está dizendo que devemos aceitar abusos.
Ele está apontando para algo mais profundo.
O sofrimento continua porque a mente continua alimentando aquilo que aconteceu.
Uma dor acontece uma vez.
Mas a mente pode repeti-la mil vezes.
Uma palavra dura foi dita há dez anos.
Mas ainda hoje ela é repetida internamente.
Um abandono aconteceu há décadas.
Mas ainda hoje produz contração no peito.
A ferida original passou.
Mas a mente continua reabrindo a cicatriz.
Pema Chödrön escreve:
“Nada jamais desaparece até que tenha nos ensinado o que precisamos aprender.”
— When Things Fall Apart
Muitas vezes acreditamos que estamos sofrendo por causa do passado.
Mas estamos sofrendo porque continuamos vivendo dentro dele.
Respire.
Observe o corpo.
Talvez exista uma memória que ainda produza tensão.
Talvez exista um nome que ainda aperte o coração.
Talvez exista uma situação que ainda desperte revolta.
Perceba.
O ressentimento é uma forma de apego.
Um apego à dor.
Um apego à identidade ferida.
Um apego à narrativa do sofrimento.
O ego possui uma característica curiosa.
Ele não se alimenta apenas de elogios.
Também se alimenta de feridas.
Às vezes a identidade inteira passa a ser construída ao redor da dor.
"Sou aquele que foi traído."
"Sou aquela que foi abandonada."
"Sou aquele que sofreu."
"Sou aquela que foi injustiçada."
E sem perceber, a dor se torna identidade.
Shantideva escreveu:
“Todos os sofrimentos do mundo surgem do desejo de felicidade para si mesmo.”
— Bodhicharyavatara
Enquanto o ego tenta proteger sua imagem, o sofrimento continua.
Porque tudo o que ameaça essa imagem passa a ser visto como inimigo.
Respire profundamente.
No Kum Nye aprendemos algo muito importante.
A mágoa não vive apenas na mente.
Ela vive no corpo.
Ela se esconde nos ombros.
Na mandíbula.
No abdômen.
No peito.
Na respiração.
Tarthang Tulku ensina:
“Quando não sentimos plenamente uma experiência, ela permanece armazenada como tensão.”
— Kum Nye Tibetan Yoga
Talvez você conheça essa experiência.
Você acha que perdoou.
Mas o corpo ainda endurece quando lembra.
Você acredita que superou.
Mas o coração ainda se fecha.
O corpo revela aquilo que a mente ainda não libertou.
Por isso o caminho budista não é apenas intelectual.
Ele é experiencial.
É sentir.
É reconhecer.
É abrir espaço.
Não para justificar o sofrimento.
Mas para deixar de carregá-lo.
O Dalai Lama ensina:
“A raiva pode parecer poderosa, mas é um sinal de fraqueza interior. A compaixão exige muito mais coragem.”
— The Art of Happiness
Respire.
Observe como a raiva promete proteção.
Mas entrega prisão.
Promete força.
Mas produz exaustão.
Promete justiça.
Mas frequentemente produz mais sofrimento.
O Buddha compreendeu algo extraordinário.
Quando odiamos alguém, essa pessoa passa a viver dentro da nossa mente.
Nós nos tornamos prisioneiros daquilo que rejeitamos.
Por isso ele ensina o não-ódio.
Não-ódio não significa passividade.
Não significa submissão.
Não significa permitir violência.
Significa não transformar o coração em uma extensão da violência que recebemos.
Significa interromper o ciclo.
Significa não transmitir adiante aquilo que nos feriu.
Chagdud Tulku Rinpoche dizia:
“Se não transformarmos nossa dor, iremos oferecê-la aos outros.”
— ensinamentos compilados em Gates to Buddhist Practice
Respire profundamente.
Sinta o peito.
Talvez exista uma dor antiga.
Talvez exista um ressentimento escondido.
Talvez exista uma tristeza que nunca encontrou espaço para ser sentida.
Não lute.
Apenas reconheça.
O reconhecimento já é um ato de compaixão.
O Satipatthana Sutta ensina que a libertação começa quando observamos claramente aquilo que está presente.
Não precisamos expulsar a raiva.
Precisamos vê-la.
Não precisamos eliminar a mágoa.
Precisamos acolhê-la com consciência.
Quando a luz da presença toca uma emoção, ela começa a se transformar.
Como gelo derretendo sob o sol.
É por isso que práticas como Metta Bhavana e Tonglen são tão importantes.
Elas não negam o sofrimento.
Elas transformam a relação com o sofrimento.
Ao invés de endurecer o coração, elas o expandem.
Ao invés de fechar, elas abrem.
Ao invés de alimentar separação, elas cultivam conexão.
E pouco a pouco surge Bodhicitta.
O coração desperto.
O coração capaz de incluir a própria dor e a dor dos outros.
Respire profundamente.
Sinta o corpo deitado.
Sinta a terra sustentando você.
E perceba:
Talvez a liberdade não esteja em mudar o passado.
Talvez esteja em mudar a relação com ele.
HARMONIZAÇÃO
Sem pressa.
Como alguém despertando após uma longa viagem.
Permita que a coluna cresça.
Imagine agora que sua coluna é como um bambu.
Firme.
Flexível.
Vazio por dentro.
Não rígido.
Não quebradiço.
Apenas disponível.
Repouse as mãos sobre o coração.
Sinta o calor das mãos.
Sinta o movimento da respiração.
Agora imagine que cada inspiração cria espaço ao redor das feridas.
Não para apagá-las.
Mas para que elas não ocupem todo o seu ser.
Inspire.
Espaço.
Expire.
Suavidade.
Inspire.
Acolhimento.
Expire.
Liberação.
Agora leve um leve sorriso para os cantos da boca.
Não um sorriso forçado.
Mas um gesto de gentileza.
Como se dissesse para si mesmo:
"Posso aprender a ser amigo daquilo que sinto."
Permaneça alguns instantes nesse estado.
Presente.
Aberto.
Disponível.
PRECE
Que eu tenha coragem de reconhecer minhas feridas.
Que eu tenha sabedoria para não transformá-las em identidade.
Que eu desenvolva compaixão por mim mesmo e pelos outros.
Que o ressentimento encontre descanso.
Que o ódio não encontre morada em meu coração.
Que eu possa transformar sofrimento em compreensão.
Que todos os seres encontrem paz, cura e libertação.
SAMADHI
ANAPANA-SATI
Observar a respiração
ESCUTA
FRASE-SEMENTE
FRASE-SEMENTE
“O ódio jamais cessa pelo ódio. Somente pelo amor o ódio poderá cessar.”
— Dhammapada, verso 5
COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
O Buddha está descrevendo uma lei da mente.
Quando respondemos à agressão com agressão, fortalecemos o mesmo padrão que desejamos interromper.
Quando alimentamos ressentimento, continuamos ligados ao sofrimento.
O não-ódio não significa concordar.
Não significa esquecer.
Não significa permitir injustiças.
Significa não perpetuar internamente aquilo que nos feriu.
A verdadeira libertação acontece quando deixamos de carregar a chama que nos queimava.
O perdão não muda o passado.
Mas transforma profundamente o presente.
E abre espaço para um futuro diferente.
MEDITAÇÃO / BHAVANA
Feche os olhos.
Sinta a respiração.
Natural.
Suave.
Sem esforço.
Agora imagine alguém por quem você sente carinho.
Pode ser uma pessoa.
Um mestre.
Um amigo.
Um animal.
Visualize essa presença diante de você.
E repita internamente:
"Que você seja feliz."
"Que você esteja em paz."
"Que você esteja livre do sofrimento."
Permaneça alguns instantes.
Sentindo.
Agora volte a atenção para si mesmo.
Imagine sua própria imagem diante de você.
Talvez mais jovem.
Talvez em algum momento difícil da vida.
Olhe para essa versão de si mesmo.
E diga internamente:
"Que eu esteja em paz."
"Que eu seja livre do sofrimento."
"Que eu aprenda a me perdoar."
Respire.
Agora visualize uma pessoa com quem existe alguma dificuldade.
Não escolha a situação mais difícil da sua vida.
Escolha alguém com quem exista apenas uma tensão moderada.
Observe as emoções que surgem.
Sem julgamento.
Sem repressão.
Apenas presença.
E, quando sentir que é possível, repita:
"Assim como eu, você deseja ser feliz."
"Assim como eu, você conhece a dor."
"Assim como eu, você procura paz."
Respire.
Não force nada.
Apenas plante uma semente.
Agora imagine que, ao inspirar, você acolhe a dor humana.
Ao expirar, oferece paz.
Esta é a essência do Tonglen.
Inspirar sofrimento.
Expirar compaixão.
Inspirar dor.
Expirar alívio.
Inspirar contração.
Expirar espaço.
Permaneça de 15 a 30 minutos nesse fluxo.
E perceba se algo amolece dentro do coração.
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