Florescer em meio ao lixo


CONTEMPLAÇÃO DA IMAGEM

Permaneça alguns instantes diante desta imagem, em silêncio.

Observe a flor que nasce em meio ao que parece não ter valor. Ela não escolhe um lugar perfeito para florescer — simplesmente encontra condições para crescer.

Assim também pode acontecer com a prática.

Em meio às dificuldades da vida, o que em mim ainda pode florescer?

Talvez a sabedoria não dependa de um mundo perfeito, mas da maneira como aprendemos a viver nele.

INTRODUÇÃO AO TEMA
Deite-se confortavelmente.
Feche os olhos.
Sinta o corpo apoiado no chão.

Imagine um lugar que não parece apropriado para uma flor.
Um terreno abandonado.
Um canto esquecido.
Um monte de lixo.

E, no meio daquele lugar, um pequeno lírio.

Ele não escolheu onde nasceu.
Não escolheu o que havia ao seu redor.
Mas cresceu.

E continua sendo uma flor.
Continua tendo beleza.
Continua tendo perfume.

Hoje vamos olhar para essa imagem.
Não podemos escolher tudo aquilo que encontramos na vida.
Mas podemos participar daquilo que cultivamos dentro de nós.

ENSINAMENTO 
Esses dois últimos versos do capítulo trazem uma imagem muito bonita.
Um lírio nasce em um monte de lixo.

E acho que vale a pena parar um pouco nessa imagem.
Porque o Buddha não diz que o lírio precisou esperar o ambiente ficar bonito para florescer.
Ele floresceu ali.

Isso não significa que o ambiente não tenha importância.
Claro que tem.
Existem ambientes que nos ajudam.
Existem ambientes que nos fazem mal.
Existem pessoas que nos inspiram e situações que nos desgastam.

Mas existe uma coisa que continua sendo nossa responsabilidade:
o que cultivamos dentro de nós.

Às vezes pensamos:
"Quando minha vida melhorar, eu vou ficar mais tranquilo."
"Quando as pessoas mudarem, eu vou conseguir ser mais paciente."
"Quando as coisas se resolverem, vou conseguir praticar."

E, sem perceber, colocamos nossa transformação sempre no futuro.

O lírio nos mostra outra possibilidade.
Ele não esperou o lugar perfeito.
Ele simplesmente encontrou condições para florescer.

E aqui precisamos ter cuidado para não transformar isso numa ideia ingênua.
Não significa aceitar qualquer situação.
Não significa permanecer onde estamos sendo destruídos.
Não significa romantizar o sofrimento.

Sabedoria também é saber sair de um lugar que nos faz mal.
Mas, enquanto estamos em uma situação, podemos perguntar:
"O que está sob minha responsabilidade aqui?"

Talvez eu não consiga mudar a pessoa que está diante de mim.
Talvez não consiga mudar uma circunstância.
Talvez não consiga controlar o que acontece.
Mas posso observar como estou respondendo.

É aí que aparece a sabedoria.
Sabedoria não é apenas saber muitas coisas.
É saber o que fazer com aquilo que encontramos.

O segundo verso diz que o discípulo do Buddha brilha por sua sabedoria entre aqueles que estão cegos e ignorantes.
Isso não é um convite para nos considerarmos superiores.
Muito pelo contrário.
A imagem não é:
"Eu sou a flor e os outros são o lixo."

Isso seria justamente perder o ensinamento.
A questão é:
mesmo quando o ambiente não favorece a lucidez, podemos continuar cultivando lucidez.

Podemos estar cercados de irritação e não alimentar mais irritação.
Podemos encontrar confusão e procurar clareza.
Podemos encontrar dureza e não precisar reproduzi-la.

Isso é muito próximo da prática de Yoga.
Quando o corpo está desconfortável, observamos.
Quando a mente quer desistir, observamos.
Quando surge comparação, observamos.
E perguntamos:
"O que quero cultivar aqui?"

Porque sempre existe alguma escolha possível.
Talvez pequena.
Mas possível.

O lírio não controla o lugar onde nasceu.
Mas ele floresce.
E talvez essa seja uma das melhores imagens para encerrar este capítulo.
Não precisamos esperar que tudo ao redor esteja perfeito para começar a viver aquilo que compreendemos.

Podemos começar aqui.
Neste corpo.
Nesta respiração.
Neste momento.

E talvez a sabedoria seja justamente isso:
não permitir que aquilo que encontramos determine completamente aquilo que nos tornamos.

HARMONIZAÇÃO PARA A PRÁTICA 
Sente-se lentamente.
Alongue a coluna.
Deixe as mãos repousarem sobre as pernas.
Feche os olhos.

Perceba o ambiente ao seu redor.
Os sons.
A temperatura.
As sensações.

Agora perceba aquilo que acontece dentro de você em resposta ao ambiente.

Não tente mudar.
Apenas observe.

Hoje vamos praticar uma coisa muito simples:
perceber o ambiente sem entregar a ele o comando da nossa mente.

PRECE
Que possamos encontrar sabedoria mesmo nas situações difíceis.
Que saibamos reconhecer aquilo que podemos transformar e aquilo que precisamos aceitar.
Que não reproduzamos aquilo que nos faz mal.
E que possamos florescer onde a vida nos colocar.

SAMADHI
ĀNĀPĀNA-SATI
Feche os olhos.
Hoje vamos observar a respiração como um ponto de estabilidade.

Perceba a inspiração.
Perceba a expiração.

Agora imagine que os sons ao redor podem continuar existindo sem precisar tirar você da respiração.

Um som aparece.
Você percebe.
E volta.
Uma sensação aparece.
Você percebe.
E volta.

Não precisamos criar um mundo perfeito para praticar.
Praticamos justamente dentro do mundo que existe.

Respire.
Permaneça.

ESCUTA
FRASE-SEMENTE
Eu cultivo dentro de mim aquilo que quero fazer florescer

COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
Não escolhemos tudo o que encontramos.
Mas podemos participar daquilo que alimentamos.

Se alimentamos constantemente a irritação, ela cresce.
Se alimentamos a atenção, ela cresce.
Se alimentamos a sabedoria, ela também cresce.

A frase de hoje não promete que o ambiente vai mudar.
Ela nos lembra de olhar para dentro e perguntar:
"O que estou cultivando?"

Essa será nossa pergunta durante a prática.

MEDITAÇÃO / BHĀVANĀ
Permaneça sentado.
Feche os olhos.
Sinta a respiração.

Imagine novamente o lírio.
Ele está cercado por aquilo que não é belo.
Mas continua sendo lírio.

Agora observe sua própria mente.
O que tem crescido dentro dela ultimamente?

Não julgue.
Apenas observe.

Agora escolha uma qualidade que você gostaria de cultivar.
Sabedoria.
Paciência.
Gentileza.
Coragem.
Presença.

Escolha apenas uma.

Imagine essa qualidade como uma pequena semente.
Respire.

Repita:
Eu cultivo dentro de mim aquilo que quero fazer florescer.

Mais uma vez:
Eu cultivo dentro de mim aquilo que quero fazer florescer.

Agora permaneça em silêncio.
Não imagine mais nada.
Apenas sinta.

O corpo.
A respiração.
A mente.

RELAXAMENTO PROFUNDO
Deite-se lentamente.
Estenda as pernas.
Afaste os pés.
Deixe os braços repousarem.
Feche os olhos.

Sinta o corpo.

Imagine novamente aquele lírio.
Ali.
No meio do lixo.

Não precisa lutar contra o lugar.
Não precisa se tornar o lugar.
Apenas floresce.

Agora deixe a imagem desaparecer.
Sinta a respiração.

Talvez existam coisas na nossa vida que não podemos escolher.
Pessoas.
Circunstâncias.
Mudanças.
Perdas.

Mas existe uma parte da nossa vida que continua sendo nossa responsabilidade:
aquilo que cultivamos.

Hoje não precisamos resolver nada.
Apenas repousar.

E deixar a prática assentar.

MENSAGEM FINAL
Chegamos ao final deste capítulo.
E talvez seja bonito terminar justamente com uma flor.

Porque encontramos flores em muitas imagens.
Flores que escolhemos.
Flores que colhemos.
Flores que perfumam.
Flores que se transformam em guirlandas.
E agora...
uma flor que simplesmente floresce.

Mesmo em um lugar difícil.

Que possamos aprender com ela.
Não precisamos esperar que a vida fique perfeita para começar a cultivar sabedoria.
Podemos começar aqui.
Agora.

E, quando o ambiente não for aquilo que gostaríamos...
que possamos lembrar:
eu ainda posso escolher o que cultivo dentro de mim.

REFLEXÃO
Em que situação da minha vida tenho permitido que o ambiente determine demais aquilo que sinto, penso ou faço?
Escreva no seu caderno:
"O que está sob minha responsabilidade cultivar nessa situação?"

EXERCÍCIO DA SEMANA
Durante esta semana, escolha uma situação difícil ou um ambiente que normalmente desperta em você uma reação automática.
Sempre que estiver nessa situação, antes de reagir, faça uma respiração consciente e pergunte:
"O que quero cultivar em mim neste momento?"
Não tente mudar o ambiente.
Não tente mudar as outras pessoas.
Observe apenas se consegue escolher uma pequena atitude coerente com a qualidade que deseja cultivar.
Ao final da semana, escreva:
"Onde consegui florescer sem deixar que o ambiente decidisse por mim?"

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