Onde Mara não encontra caminho


CONTEMPLAÇÃO DA IMAGEM

Permaneça alguns instantes diante desta imagem, em silêncio.

Observe a serenidade daquele que permanece desperto enquanto o mundo continua se movimentando ao seu redor.

Māra encontra caminho onde há distração, apego e negligência. Onde existe vigilância e sabedoria, seu caminho se fecha.

Pergunte a si mesmo:
Onde, em minha mente, ainda deixo espaço para a distração?

E simplesmente observe.

INTRODUÇÃO AO TEMA
Deite-se confortavelmente.
Feche os olhos.
Sinta o corpo apoiado no chão.

Imagine uma casa.
Uma casa tranquila.

Agora imagine que existem várias portas.
Algumas estão abertas.
Outras estão fechadas.

Nem tudo aquilo que chega precisa entrar.
Podemos perceber alguma coisa...
e escolher não abrir a porta.

Um pensamento pode aparecer.
Uma emoção.
Um impulso.
Uma vontade.

Perceber não significa seguir.

Hoje vamos praticar justamente isso:
perceber antes de oferecer passagem.

ENSINAMENTO
Este verso é muito bonito porque junta três coisas:
virtude, vigilância e sabedoria.
E então diz que Māra não encontra caminho.

Eu gosto de pensar nisso não como uma luta.
Não precisamos imaginar uma batalha.
É mais simples.
Existe um caminho que poderia ser percorrido...
mas a mente não oferece passagem.

Um pensamento aparece.
E nós percebemos.
Uma irritação aparece.
E percebemos.
Uma vontade aparece.
E percebemos.
Mas não precisamos automaticamente transformar aquilo em palavra ou ação.

Isso é vigilância.
Não é ficar tenso.
Não é desconfiar de tudo.
É estar suficientemente presente para perceber o que está acontecendo enquanto ainda podemos escolher.

Porque existe um momento muito pequeno entre aquilo que surge na mente e aquilo que fazemos.
E nesse pequeno espaço existe uma possibilidade enorme.
Escolher.

Talvez seja isso que o verso esteja apontando quando fala de sabedoria.
Não basta perceber.
Precisamos compreender o que merece ser seguido.

Uma emoção pode aparecer sem que precisemos obedecê-la.
Um desejo pode aparecer sem que precisemos realizá-lo.
Um pensamento pode aparecer sem que precisemos acreditar nele.

Isso é muito diferente de tentar controlar a mente.
Não estamos tentando impedir que alguma coisa surja.
Estamos aprendendo a não oferecer passagem para tudo que surge.

Pense numa porta.
Você não precisa destruir aquilo que está do lado de fora.
Só precisa saber se vai abrir.

E talvez seja aí que a vigilância se encontra com a virtude.
Porque nossas escolhas repetidas constroem a maneira como vivemos.
Se alimentamos constantemente a irritação, ela ganha força.
Se alimentamos a atenção, ela ganha força.
Se alimentamos a generosidade, ela ganha força.

Então a prática não é apenas perceber o que a mente está fazendo.
É também escolher o que vamos fortalecer.

Hoje, no Yoga, vamos experimentar isso de uma maneira muito concreta.
Vamos entrar nas posturas e observar.
Uma tensão aparece.
Percebemos.
Uma vontade de sair aparece.
Percebemos.
Uma distração aparece.
Percebemos.

E então perguntamos:
"Preciso seguir isso?"

Talvez não.
Talvez possamos simplesmente permanecer.
Respirar.
Escolher.

Vigilância não é tensão.
É presença disponível.
É aquela pequena luz que fica acesa.

Quando essa luz está acesa, certas coisas simplesmente não encontram caminho.

HARMONIZAÇÃO
Sente-se lentamente.
Alongue a coluna.
Deixe as mãos repousarem sobre as pernas.
Feche os olhos.

Observe a respiração.
Agora observe a mente.

Não tente deixá-la vazia.
Apenas perceba.

Pensamento.
Sensação.
Impulso.

Tudo pode aparecer.
Mas nem tudo precisa ser seguido.

PRECE
Que possamos permanecer atentos sem tensão.
Que possamos perceber aquilo que surge antes de agir.
Que a sabedoria ilumine nossas escolhas.
E que nossa mente não ofereça passagem àquilo que nos afasta da lucidez.

SAMADHI
ĀNĀPĀNA-SATI
Feche os olhos.
Hoje vamos observar a respiração nos momentos de mudança.
Perceba o final da inspiração.
Existe um pequeno instante antes da expiração.

Perceba.
Depois observe o final da expiração.
Existe outro pequeno instante antes da inspiração.

Não tente prolongar esses momentos.
Apenas perceba.

É justamente nos pequenos intervalos que aprendemos a notar.

Pensamento.
Silêncio.
Pensamento.
Silêncio.

Apenas observe.

ESCUTA
FRASE-SEMENTE
Nem tudo o que surge precisa entrar

COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
A frase não diz:
"Não deixe pensamentos surgirem."
Isso seria impossível.

Ela diz:
nem tudo precisa entrar.

Um pensamento pode bater à porta.
Uma emoção pode bater à porta.
Um impulso pode bater à porta.
Podemos perceber.
Mas podemos escolher.

Essa escolha é uma pequena expressão de liberdade.

MEDITAÇÃO / BHĀVANĀ
Permaneça sentado.
Feche os olhos.
Sinta a respiração.

Imagine uma porta.
Você está do lado de dentro.

Agora deixe pensamentos surgirem naturalmente.
Não procure nenhum pensamento específico.

Quando surgir alguma coisa, imagine que ela bate à porta.
Você percebe.
Mas não precisa abrir.

Apenas observe.

Pensamento.
Percepção.
Escolha.

Repita mentalmente:
Nem tudo o que surge precisa entrar.

Mais uma vez:
Nem tudo o que surge precisa entrar.

Agora deixe a imagem da porta desaparecer.
Volte para a respiração.

Permaneça atento.
Sem tensão.
Sem expectativa.

MENSAGEM FINAL
Vigilância não é viver com medo.
É viver acordado.

É perceber o que está acontecendo antes de ser levado por aquilo.
É reconhecer um impulso antes de transformá-lo em ação.
É perceber uma emoção antes de deixar que ela conduza toda a nossa experiência.

Quando estamos atentos, algumas coisas simplesmente não encontram caminho.

Que possamos manter essa pequena luz acesa.
Sem tensão.
Sem medo.
Apenas presença.

REFLEXÃO
Em que situação do meu dia eu costumo agir automaticamente, sem perceber o que está acontecendo dentro de mim?
Anote no seu caderno.
Observe especialmente o instante que existe antes da reação.

EXERCÍCIO DA SEMANA
Durante esta semana, escolha uma reação automática que você gostaria de observar.
Sempre que perceber que ela está surgindo:
pare por um instante;
respire uma vez conscientemente;
observe o impulso;
e só depois escolha o que fazer.
Não tente eliminar a reação.
O exercício é perceber que existe um espaço entre surgir e agir.
Ao final da semana, anote:
"Quantas vezes eu percebi antes de reagir?" 

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