Permaneça alguns instantes diante desta imagem.
O espelho nos convida a voltar o olhar para nós mesmos. É fácil perceber os erros, as escolhas e as omissões dos outros; mais difícil é reconhecer aquilo que, silenciosamente, acontece em nossa própria mente e orienta nossas ações.
Sem culpa e sem julgamento, pergunte:
O que minhas próprias atitudes estão revelando sobre mim?
INTRODUÇÃO AO TEMA
Deite-se confortavelmente.
Feche os olhos.
Sinta o corpo repousando no chão.
Imagine por alguns instantes que você está diante de um espelho.
Não é um espelho que mostra sua aparência.
É um espelho que mostra suas atitudes.
Você não precisa gostar de tudo o que vê.
Também não precisa rejeitar nada.
Apenas olhar.
Hoje vamos fazer uma prática um pouco diferente.
Em vez de olhar para fora...
vamos olhar para nós mesmos.
Sem culpa.
Sem julgamento.
Apenas com honestidade.
ENSINAMENTO
Esse verso é realmente radical.
O Buddha diz:
"Não são as falhas dos outros..."
(Não são as falhas dos outros, nem suas ações ou omissões, mas sim os próprios erros e negligências que o sábio deve observar – Verso 50)
E aqui ele corta uma tendência muito humana.
A nossa facilidade de perceber o que o outro está fazendo de errado.
É impressionante como podemos perceber rapidamente a impaciência de alguém.
A arrogância.
A grosseria.
A falta de atenção.
A maneira como alguém fala.
A maneira como alguém age.
E, muitas vezes, somos excelentes observadores...
quando o assunto é o comportamento dos outros.
O problema é que essa observação pode nos dar uma falsa sensação de sabedoria.
Porque perceber o erro do outro não significa compreender a nós mesmos.
O Buddha propõe outra direção.
Olhe para os próprios erros e negligências.
Isso não é culpa.
É responsabilidade.
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
A culpa diz:
"Eu sou errado."
A responsabilidade diz:
"Eu fiz isso. Posso olhar para isso. Posso aprender."
Uma fecha a porta.
A outra abre.
E talvez seja por isso que o verso seja tão importante para uma prática de Yoga.
Porque Yoga não é apenas perceber o que acontece fora.
É aprender a perceber o que acontece dentro.
Por exemplo:
Podemos reclamar que alguém é impaciente.
Mas conseguimos perceber a nossa própria impaciência?
Podemos perceber a agressividade de alguém.
Mas percebemos quando nossa fala também se torna agressiva?
Podemos criticar a distração de alguém.
Mas reconhecemos quando estamos distraídos?
Esse olhar para nós mesmos exige uma qualidade muito bonita:
honestidade.
Não aquela honestidade dura que fica procurando defeitos.
Uma honestidade tranquila.
"Isso aconteceu."
"Eu fiz isso."
"Eu não percebi."
"Eu poderia ter agido de outra maneira."
E pronto.
Não precisamos construir uma história inteira em cima disso.
Talvez essa seja uma das práticas mais difíceis.
Porque olhar para nós mesmos significa abrir mão, por alguns instantes, da posição confortável de quem está apenas observando o erro dos outros.
Mas existe uma liberdade nisso.
Quando reconheço aquilo que faço, posso trabalhar com aquilo.
Quando não reconheço, continuo sendo conduzido pelo mesmo padrão.
Por isso o verso fala também das negligências.
Não apenas dos erros que cometemos.
Mas daquilo que deixamos de observar.
Aquilo que sabemos que deveríamos cuidar e simplesmente ignoramos.
Isso acontece muito na nossa vida.
Não é necessariamente fazer alguma coisa errada.
Às vezes é deixar de fazer aquilo que sabemos ser importante.
Não escutar.
Não descansar.
Não pedir desculpas.
Não cuidar de uma relação.
Não observar uma reação antes de agir.
A prática de hoje é um convite muito simples:
pare de olhar por alguns instantes para o que o outro deveria mudar.
E observe:
o que eu posso perceber em mim?
Não para me condenar.
Para me conhecer.
Porque quando assumimos responsabilidade pelo que acontece dentro de nós, começamos a recuperar uma coisa muito importante:
a possibilidade de transformação.
HARMONIZAÇÃO
Sente-se lentamente.
Alongue a coluna.
Deixe as mãos repousarem sobre as pernas.
Feche os olhos.
Observe o corpo.
Sem tentar corrigir nada.
Observe a respiração.
Observe a mente.
Hoje não vamos procurar o que está errado.
Vamos simplesmente aprender a olhar.
Com honestidade.
E sem agressividade.
PRECE
Que possamos ter coragem para olhar para nós mesmos.
Que possamos reconhecer nossos erros sem culpa.
Que possamos perceber nossas negligências sem medo.
E que esse olhar sincero nos ajude a transformar aquilo que precisa ser transformado.
SAMADHI
ĀNĀPĀNA-SATI
Feche os olhos.
Hoje vamos observar a respiração sem escolher o que é agradável ou desagradável.
Perceba a inspiração.
Perceba a expiração.
Agora observe:
A respiração está longa?
Curta?
Profunda?
Superficial?
Não tente mudar.
Apenas reconheça.
Se houver tensão, reconheça.
Se houver tranquilidade, reconheça.
Se houver distração, reconheça.
Não precisamos corrigir imediatamente.
Primeiro precisamos perceber.
Essa é a prática de hoje:
ver antes de agir.
ESCUTA
FRASE-SEMENTE
Eu olho para mim com honestidade e sem culpa.
COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
Olhar para nós mesmos não significa procurar defeitos.
Significa ter coragem de enxergar.
Se percebemos uma reação que não gostaríamos de ter, podemos reconhecê-la.
Sem dizer:
"Eu sou assim."
Apenas:
"Isso aconteceu em mim."
Essa pequena diferença abre espaço para mudança.
Por isso vamos meditar sem julgamento.
Olhar.
Reconhecer.
E compreender.
MEDITAÇÃO / BHĀVANĀ
Feche os olhos.
Sinta a respiração.
Agora traga à mente uma situação recente em que você tenha ficado incomodado com alguém.
Não escolha uma situação muito difícil.
Apenas uma situação cotidiana.
Lembre-se do que aconteceu.
Agora, em vez de olhar para aquilo que a outra pessoa fez...
olhe para você.
Como eu estava?
O que senti?
Como reagi?
Não procure uma resposta bonita.
Apenas observe.
Repita mentalmente:
Eu olho para mim com honestidade e sem culpa.
Mais uma vez:
Eu olho para mim com honestidade e sem culpa.
Agora deixe a situação desaparecer.
Volte para a respiração.
Permaneça alguns instantes simplesmente observando.
MENSAGEM FINAL
É muito fácil perceber o que os outros precisam mudar.
Mais difícil é perceber o que nós precisamos olhar.
Mas esse olhar não precisa ser duro.
Podemos olhar para nós mesmos como olharíamos para um amigo querido:
com honestidade,
mas também com compreensão.
Que possamos ter coragem para reconhecer nossos erros.
Humildade para perceber nossas negligências.
E responsabilidade para escolher diferente.
REFLEXÃO
Qual comportamento meu eu consigo perceber facilmente nos outros, mas tenho dificuldade de reconhecer em mim?
Escreva no seu caderno sem se julgar.
Apenas observe.
EXERCÍCIO DA SEMANA
Durante esta semana, sempre que você perceber que está criticando mentalmente alguém, faça uma pausa.
Respire três vezes.
E pergunte:
"Existe algo semelhante em mim que eu também preciso observar?"
Não procure uma resposta para se culpar.
Apenas observe.
O olhar que antes estava voltado para fora agora volta para dentro.
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