Permaneça alguns instantes com esta imagem, em silêncio.
Observe o tesouro que ela revela. Não é ouro, nem poder, nem reconhecimento. É uma mente desperta, capaz de permanecer presente em cada escolha.
Pergunte a si mesmo: o que você tem protegido com mais cuidado em sua vida?
Aquilo que realmente transforma ninguém pode comprar, vender ou roubar. A vigilância, cultivada dia após dia, torna-se uma riqueza interior que acompanha cada passo e ilumina cada decisão.
Que esta imagem inspire em você o desejo de guardar a atenção consciente como seu bem mais precioso, descobrindo que a verdadeira alegria nasce de uma mente desperta e de um coração livre do apego.
CAPÍTULO 2 — APPAMĀDAVAGGA
O TESOURO QUE NINGUÉM PODE ROUBAR
Tema da aula
O verdadeiro valor da vida
Versos 26 e 27
"Os tolos seguem a vaidade e a falsa sabedoria. O sábio guarda a vigilância como seu maior tesouro."
"Não siga a vaidade nem os prazeres do apego e do desejo! Aquele que é vigilante e meditativo alcança uma alegria profunda."
INTRODUÇÃO AO TEMA
Sente-se a partir da postura tradicional do sentar.
Permita que o corpo encontre apoio na terra.
Feche suavemente os olhos.
Respire sem pressa.
Não existe nada para conquistar agora.
Existe apenas este momento.
Gostaria que você imaginasse uma cena muito simples.
Imagine uma criança caminhando pela praia.
Ela encontra uma concha.
Para ela, aquela concha é um verdadeiro tesouro.
Ela a segura com carinho.
Sorri.
Fica feliz.
Mas, alguns dias, semanas ou meses depois, provavelmente ela nem saiba onde aquela concha ficou.
Veja que interessante.
Aquilo que parecia tão importante deixou de ter importância.
Isso acontece durante toda a nossa vida.
Mudam os objetos.
Mudam os desejos.
Mudam as preocupações.
Mas continuamos procurando algo que nos faça sentir completos.
Talvez a pergunta de hoje seja muito simples.
O que realmente tem valor pra mim?
Respire profundamente.
Permita que essa pergunta permaneça silenciosamente dentro de você.
ENSINAMENTO
O Buddha diz:
Verso 26
"Os tolos seguem a vaidade e a falsa sabedoria. O sábio guarda a vigilância como seu maior tesouro."
Logo depois ele continua:
Verso 27
"Não siga a vaidade nem os prazeres do apego e do desejo! Aquele que é vigilante e meditativo alcança uma alegria profunda."
Veja que interessante.
O Buddha não condena os prazeres.
Ele também não diz que devemos rejeitar a beleza da vida.
Ele está chamando nossa atenção para outra coisa.
Para aquilo que ocupa o centro do nosso coração.
Existe uma diferença enorme entre apreciar alguma coisa e depender dela para ser feliz.
Talvez você já tenha percebido isso.
Às vezes desejamos muito alguma coisa.
Pensamos nela durante semanas.
Quando finalmente conseguimos, sentimos alegria.
Mas pouco tempo depois a mente começa a desejar outra coisa.
É como se nunca fosse suficiente.
O Buddha observa esse movimento com muita delicadeza.
Ele não critica as pessoas.
Ele apenas mostra como a mente funciona.
Sempre procurando.
Sempre querendo mais.
Sempre acreditando que a próxima conquista finalmente trará paz.
Mas essa paz nunca permanece por muito tempo.
Veja que interessante.
O problema não é possuir.
O problema é acreditar que aquilo que possuímos pode preencher completamente o coração.
É por isso que o verso fala de vaidade.
Hoje costumamos associar essa palavra apenas à aparência.
Mas aqui ela tem um significado muito maior.
Vaidade é tudo aquilo que alimenta a ilusão de um "eu" que precisa provar o próprio valor o tempo inteiro.
Precisamos ser admirados.
reconhecidos...
parecer importantes.
E, sem perceber, começamos a viver olhando para fora.
Comparando.
Competindo.
Buscando aprovação.
Isso cansa.
E muito.
Porque nunca existe um ponto final.
Sempre haverá alguém mais bonito.
Mais inteligente.
Mais rico.
Mais famoso.
Quando nossa felicidade depende disso, ela se torna extremamente frágil.
Então o Buddha apresenta outro caminho.
Ele diz:
"O sábio guarda a vigilância como seu maior tesouro."
Veja que bonito.
Ele não diz que o maior tesouro é o conhecimento.
Nem a riqueza.
Nem o poder.
Nem o prestígio.
O maior tesouro é uma mente desperta.
Porque uma mente desperta sabe aproveitar as coisas boas da vida sem se aprisionar a elas.
Ela ama sem possuir.
Ela trabalha sem fazer da profissão sua identidade.
Ela desfruta sem transformar o prazer em dependência.
Essa liberdade muda completamente nossa maneira de viver.
Talvez o verdadeiro tesouro não seja aquilo que acumulamos.
Mas aquilo que ninguém consegue tirar de nós.
Nossa capacidade de permanecer conscientes.
Nossa bondade.
Nossa serenidade.
Nossa presença.
Esses tesouros crescem quanto mais são praticados.
E ninguém pode roubá-los.
O Buddha continua dizendo:
final do Verso 27
"Aquele que é vigilante e meditativo alcança uma alegria profunda."
Eu gosto muito dessa expressão.
Alegria profunda.
Ela é diferente da excitação.
Diferente da euforia.
Diferente da satisfação passageira.
É uma alegria silenciosa.
Uma alegria que nasce quando deixamos de correr atrás da vida e começamos finalmente a viver a vida.
Talvez você já tenha sentido isso....
Depois de uma boa prática de Yoga.
Depois de uma meditação.
Depois de contemplar o mar.
Depois de caminhar na natureza.
Não aconteceu nada extraordinário.
Mas existia uma sensação de plenitude.
Por alguns instantes, nada faltava.
Essa é a alegria de que o Buddha fala.
Ela nasce quando o coração deixa de procurar felicidade apenas do lado de fora.
O Kum Nye nos ensina exatamente isso.
Quando relaxamos profundamente, começamos a sentir uma satisfação muito simples.
Não depende de comprar.
Não depende de vencer.
Não depende de provar nada.
A satisfação surge porque finalmente estamos habitando o próprio corpo.
Habitando a própria respiração.
Habitando este instante.
Talvez seja exatamente isso que o Buddha chama de um verdadeiro tesouro.
Algo que cresce dentro de nós.
Algo que não envelhece.
Algo que continua conosco mesmo quando todas as outras coisas mudam.
Veja que interessante.
Passamos muitos anos aprendendo como conquistar o mundo.
Mas talvez a prática espiritual nos ensine outra arte.
A arte de não perder a nós mesmos enquanto caminhamos pelo mundo.
E, quando isso acontece, descobrimos que a maior riqueza não está em possuir mais.
Está em precisar de menos para experimentar paz.
SAMADHI
ANAPANA SATI
Observar a respiração
ESCUTA (FRASE-SEMENTE)
"O sábio guarda a vigilância como seu maior tesouro."
(Dhammapada 26)
COMPREENSÃO DA FRASE-SEMENTE
Os tesouros do mundo mudam.
O corpo muda.
As circunstâncias mudam.
A consciência desperta, porém, torna-se um patrimônio interior que cresce a cada prática.
Quanto mais cultivamos presença, menos dependemos das circunstâncias para experimentar paz.
MEDITAÇÃO — BHAVANA
Feche novamente os olhos.
Observe a respiração.
Agora pergunte silenciosamente:
O que hoje considero meu maior tesouro?
Observe as respostas que surgem.
Não as julgue.
Depois faça outra pergunta:
Existe alguma qualidade dentro de mim que vale mais do que qualquer conquista externa?
Sinta que cada inspiração fortalece essa riqueza interior.
Permaneça por 15 a 30 minutos apenas respirando em estado meditativo.
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